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terça-feira, 27 de outubro de 2015

A enquete do dia

     Quase todos os dias e, às vezes, mais de uma vez, liga gente aqui em casa querendo me submeter a questionários.  São pesquisas de mercado, gente vendendo coisa e sei lá quê mais. Normalmente digo que não tenho interesse, nem tempo. 
   Ontem, porém, ligou uma mulher solicitando minha participação numa enquete sobre a quantidade de animais nos lares do país. Uma pesquisa muito importante, dizia ela, e que minha colaboração era de extrema relevância. Como ela tinha uma voz rouca de cantora de sucesso e era simpática, aceitei.
     “O senhor tem algum animal em casa?”, ela me perguntou. Sua voz era uma mistura de Amy Winehouse com Elza Soares.
     “Sim...”, respondi, sem completar a frase.
      Depois de alguns segundos, impaciente com meu silêncio, ela continuou.
     “Um gato, um cachorro...”, deu exemplos esperando minha resposta. Deixei que ela fizesse uma pausa, e tornei.
     “Formiga. Tem formiga que não acaba mais aqui...”
     Ela soltou uma gargalhada. Mas como tinha pressa em telefonar para mais pessoas, agradeceu e me desejou boa noite.
     Desliguei.
     Formiga não é animal? Por que só vale gato e cachorro? Tenho dois formigueiros no jardim. Duas sociedades inteiras que se respeitam e se odeiam. Já as vi brigando por pedaços de pão. Já vi casais apaixonados em acasalamento. Já saiu até morte entre as formigas dos montecchios e as dos capuletos. Tem de tudo lá dentro. Mas a garota da pesquisa não considera minhas formigas, animais.  

 por Flavio Quintale

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Toma chocolate, paga lo que debes


Vire e mexe vem gente vender coisas para mim. Recentemente uma moça tocou a campainha de casa e, pelo interfone, anunciou que eu havia sido escolhido entre os moradores do bairro para ter um desconto de vinte e cinco por cento nas contas de luz, gás e água.  Estava pensando em tudo naquele instante, menos nas contas de luz, gás e água. Já basta o sofrimento no dia do pagamento. Foi bem no momento em que, saboreando um café forte, lia o jornal The Independent que anunciava, com grande alarde, a proposição de Berlim em acolher cerca de 800 mil refugiados sírios no país. Alguns eufóricos veem a medida como parte de um pagamento humanitário que a Alemanha deve ao mundo. De fato, a medida é louvável. O mundo assiste o desespero de famílias em fuga em busca da sobrevivência. Fotos chocantes inundam nosso cotidiano. Dar-lhes um lar e perspectiva de futuro é um ato de solidariedade invejável. Por outro lado, a Dinamarca faz anúncios na imprensa da região dos conflitos desencorajando os refugiados a tentarem entrar em seu país. Os dinamarqueses leem a história do Patinho Feio de Andersen desde pequenos. Uma parte da população europeia teme o avanço mulçumano ainda maior no continente que pode vir com os refugiados. Foram séculos de luta pela liberdade religiosa. Revoluções e perseguições que custaram muitas vidas. O proselitismo islâmico assusta muitos dos que se opõem a recebê-los. Os partidos xenófobos ganham força. Michel Houellebecq não fez sucesso com seu Soumission por acaso. Esse é o cerne das discussões na Europa, não é somente a questão econômica.

                Mas como ouvi, pelo interfone, a palavra “desconto”, senti um “tim” nos meus ouvidos.  Fiquei interessado em ouvir a boa nova. Fui até a porta atendê-la em ritmo de chachachá. Ela pediu para entrar. Cordialmente, levei-a para se sentar à mesa que temos no jardim. Lá, comemos em família nos dias quentes, nos dias de festa e nos dias de churrasco. Ela se acomodou e começou a explicar que eu receberia um desconto de 25% se trocasse de companhia. Para tanto, eu deveria pagar uma multa para minha atual fornecedora. Ou seja, ela não me disse, mas fazendo os cálculos, no final das contas, a mudança me custaria mais caro. Educadamente, disse que não tinha interesse. Com certa irritação, ela insistiu em me convencer. “O senhor não quer ter desconto?” Entendo. Ela depende de persuadir as pessoas para ganhar uma comissão que, imagino, coitada, deve ser bem irrisória. “Não. Não quero”. Surpresa, ela começava a perder a esperança, até que argumentei que todas essas empresas eram geridas por delinquentes, querendo sempre explorar o consumidor. Vendo meu descrédito no sistema, desolada, ela concordou em ir embora.

Sem deixar de falar em faturas a pagar e voltando a tratar do caso espinhoso, sou obrigado a fazer uma confissão: suspeito de tanto amor. Estrangeiro que viveu tantos anos na Alemanha, como é o meu caso, terá provavelmente a mesma desconfiança que eu. É preciso tomar cuidado. Poderão ser criados guetos, como já existem em muitos lugares com os turcos. Quantos dos meus estudantes turcos, mesmo os mais brilhantes, já não foram vítimas de preconceito? O sobrenome é, em muitos casos, critério de seleção. O próprio governo já reconheceu que a integração é um fracasso. Mas não são eles um excelente exército de mão de obra barata? Gente para executar serviços que o alemão não está disposto a fazer. Gente jovem para garantir a aposentadoria dos mais velhos. É aquela história: toma chocolate, paga lo que debes. Um dilemme cornélien. Se ficam, morrem de bombas; se fogem, são massacrados psicologicamente. De presente de grego, até os gregos estão fartos. Eles conhecem bem a chanceler alemã. Em suas mãos, tudo vira negócio. Pode ser um Cavalo de Tróia. Atraí-los para um lugar único e depois encontrar outra solução, que nada tem a ver com afeto e solidariedade. Será? Tomara que não. Oxalá seja a vitória da fraternidade entre os povos. Mas não ponho minha mão no fogo. Já chega queimá-la com as contas de luz, gás e água.
por Flavio Quintale

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

O palitinho do alemão


As semelhanças entre a Prússia e o Japão foram exaustivamente expostas pelos historiadores, embora os estereótipos sejam das coisas mais discutíveis que já se inventaram. Aquela coisa de que ambas as nações pensam em acumular capital mais do que viver, que têm muita competência, energia, crueldade  e avareza, tudo isso com muita obediência, que é ao mesmo tempo sua fortaleza e sua fraqueza. Um dia desses, resolvi almoçar num restaurante japonês na Alemanha. Talvez eu quisesse matar saudades dos passeios pelo bairro da Liberdade em São Paulo, que sempre tinham uma paradinha obrigatória para provar uns tantos sushi, sashimi, nigiri e por aí vai. É elegante alguém dizer que não gosta de indiscrição no restaurante, de ficar reparando no que os outros estão comendo nas mesas ao lado. Mas a verdade é que todo mundo disfarça e sempre dá uma olhadela nos pratos alheios. Não fugi à regra. Na mesa ao lado, um alemão resolveu pedir uma porção de chucrute. Ri internamente, com a boca do estômago, porque não queria ser indiscreto, nem parecer deselegante. Chucrute num restaurante japonês? Comeria o alemão chucrute de palitinho? Não. Não pode ser. Aparece cada personagem na vida real, pensei. Mas para minha surpresa, tinha. Havia chucrute. E lá foi o kamikaze bávaro, com palitinhos nervosos, mandando a carne, os legumes e a repolhada goela abaixo. Aquilo tudo junto, muito misturado, deve ter dado uma baita Blitzkrieg no banheiro da casa dele. Dizem que boas teorias se comprovam na prática. Então compreendi a frustração dos historiadores que precisam de infinitas análises e centenas de volumes em idiomas variados para comprovarem hipóteses, que em um almoço qualquer estariam resolvidas.
por Flavio Quintale