quinta-feira, 25 de maio de 2017

Jardim abandonado

Foram-se as violetas.
Foi-se também a rosa.
Por último, foram-se ainda os crisântemos.
O jardim ficou deserto, devastado pela tempestade.
O vento semeou e a chuva, devagar, muito devagar, refrescou a terra.
O novo broto é ainda frágil, débil e disforme,
mas traz na seiva a esperança de que um dia
uma nova flor há de surgir
e o jardim será muito mais perfumado
que ao tempo das violetas, da rosa e dos crisântemos.
  Flavio Quintale (25/05/2017)

quinta-feira, 2 de março de 2017

O discípulo e o mestre


“Mestre. Dizes que a amizade é a forma de amor mais completa. Mas qual é o fundamento da amizade?”
“O valor. Dou um exemplo. Se cultura e conhecimento não são valores essências para ti, tu jamais admirarás uma pessoa com cultura e conhecimento. Sua companhia será algo insuportável. Evite problemas. Procure alguém com outros valores. Os mesmos que os teus. A chance de dar certo é maior. O amor a essa amizade tenderá sempre a crescer”. 

“Por isso que há cães e gatos que não se entendem e cães e gatos que se entendem”
“Exato. A amizade não consiste em ser cão ou ser gato. Mas em compartilhar valores”.

“Não se podem confundir valores com interesses?”
“Sim. Nesse caso não se trata de amizade”.

Por Flavio Quintale

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

A minha ideia de “Epidemia”


                Depois de trabalhar em várias versões do texto, cheguei a essa versão de Epidemia publicada em janeiro de 2017 em versão e-book pela Amazon. O material contido nessa narrativa seria o suficiente para um romance de... digamos... umas quinhentas páginas. Mas não acho que encontraria leitores contemporâneos em número suficiente para encarar tal empreitada. Não me lamento. Apenas constato. Não sou artista de televisão, não saio por nenhuma grande editora, não ganhei nenhum prêmio literário importante, não pertenço a nenhuma academia literária. Tenho apenas meus seguidores, meio anônimos, das redes sociais. Essa foi uma das razões que me fez optar por condensar essas centenas de páginas imaginárias em pouco mais de uma dezena delas, como se cada parágrafo representasse um capítulo e, uma página, mais de cinquenta. O resultado é essa Epidemia, microromance para o leitor contemporâneo, com conteúdo suficiente para leitores de todos os tempos. Se é que existirão todos os tempos e, o pior, leitores, e pior ainda, leitor dessa mínimanovela.
             Epidemia foi imaginada como um compêndio de suspense, mistério, tragédia, símbolos, discussões teológicas, filosóficas, históricas, artísticas e escatológicas. Brevidade, densidade, comicidade e enigma. Pode-se ler em uma sentada, se quiser. Pode-se também se sentar longamente, parágrafo por parágrafo, palavra por palavra, durante horas, dias, meses e anos. Epidemia dá liberdade completa ao leitor de compreendê-la como quiser, em meia-hora ou em meia vida. Epidemia convida todo mundo. Põe na roda a carola de igreja e o teólogo especialista no Apocalipse; o fissurado em quadrinhos e o apreciador de Dostoievski; o curioso do jornal de bairro e o leitor de Albert Camus; o aluno da escola técnica e o doutor em filosofia; o biomédico e o amante de pintura renascentista; o ateu mais convicto e o religioso mais supersticioso. Todo mundo poderá encontrar o seu parágrafo e a sua palavra na história.
              Agora me despeço. Falar pouco é falar demais. Se eu encontrar alguns míseros leitores nos próximos séculos, já me darei por satisfeito. Tomara, porém, que eles apareçam antes, nas próximas décadas. Mas se não for possível, que surjam antes do triunfo da epidemia devastadora.
 
por Flavio Quintale
Link para baixar "Epidemia":

domingo, 5 de junho de 2016

Bom pastor


Cansado de deuses e profetas, resolveu fundar o próprio templo. Inventou uma maneira própria de ir ao reino universal do céu: a cavalo. Tornou-se testemunha de Quixote, frequentador dos quixotistas do sétimo dia, dizimista do Quixote dos santos dos últimos dias e pregador da Assembleia de Quixote. Repetia frases à exaustão: Quixote é fiel; Quixote é amor; O Senhor Quixote é meu pastor, nada me faltará; Quixote é dez; Ora que melhora, irmão Sancho! Treinou para a aeróbica do Senhor Quixote, recebeu o carismático espírito do Senhor Quixote e colaborou na Campanha da Quixotenidade. Renasceu em Quixote e nessa crença quis viver e morrer. 

do Livro dos Textículos, Flavio Quintale.

segunda-feira, 7 de março de 2016

A uma princesa distante

Apresenta-se aqui um dos poemas do escritor neerlandês, J.J. Slauerhoff, amante da cultura e da literatura portuguesa, traduzido e musicado.

  Voor de verre prinses 

J.J. Slauerhoff
 
Wij komen nooit meer saam:
De wereld drong zich tusschenbeide.
Soms staan wij beiden ’s nachts aan ’t raam,
Maar andre sterren zien we in andre tijden.

Uw land is zoo ver van mijn land verwijderd:
Van licht tot verste duisternis – dat ik
Op vleuglen van verlangen rustloos reizend,
U zou begroeten met mijn stervenssnik.

Maar andre als het waar is dat door groote droomen
Het zwaarst verlangen over wordt gebracht
Tot op de verste ster: dan zal ik komen,
Dan zal ik komen, iedren nacht.

 
A uma princesa distante 
Tradução de Mila Vidal Paletti
Jamais voltaremos a ver-nos,
Entre nós dois há um mundo pelo meio.
Por vezes, de noite, à janela nos detemos
Mas são outras as estrelas que vemos...
Doutros tempos o enleio.
É tão longínquo o vosso país do meu:
Como a luz da mais funda escuridão - tão distante -
Que viajando sem parar nas asas do desejo, eu
Vos saudaria num suspiro agonizante.
Porém, se for verdade,
Que sonhando o impossível,
Se leva o maior dos anseios
À estrela mais intangível:
Então eu voltarei,
Voltarei todas as noites...
(De saudade).
 
Música: Custódio Valente. Voz: Cristina Branco.
 



 
 
 
 
 
 

 
 

 

terça-feira, 1 de março de 2016

Inspirado em Slauerhoff


E no fim de semana vai o fiel à igreja para fortalecer a alma.
Canta salmos de louvor que se elevam ao céu. 
Confraterniza com os irmãos.
Satisfeito, torna a casa.
Já está dispensado da caridade nos outros dias.

 
 Flavio Quintale
Inspirado em “De afgescheiden gemeente” de J. Slauerhoff.

 

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Diálogos machadianos na era da internet

“O canário é senhor da gaiola que habita e da loja que o cerca. Fora daí, tudo é ilusão e mentira”. A partir dessa citação de Machado de Assis, Godofredo de Oliveira Neto intitulou seu livro Ilusão e Mentira: as histórias de Adamastor e Lalinha publicado pela editora Batel. Duas histórias compõe o volume.
    A primeira, O galo Adamastor, é inspirada em uma passagem de Memórias Póstumas de Brás Cubas, em que se descreve uma briga de galos. Com esse galo inglês, Godofredo atualiza a história: “Juntemo-nos à roda e ouçamo-lo. Se quiserem gravar no iPad ou no celular, fiquem à vontade, podem tirar fotos com flash, sem flash, com zoom, sem zoom, como quiserem, aqui é o território da arte, território livre da arte, onde se misturam norma culta da língua portuguesa com registro popular, música clássica com ritmos contemporâneos, balé clássico com capoeira, ópera com cantos do nosso folclore”. O mundo moderno é civilizado. “Briga de galo é coisa do passado, esporte típico da perversidade humana, acabou faz tempo, mano, ainda bem. Os galos de briga são agora valorizados pela sua estampa, o que vale é estética”. Até os galos sucumbem à sociedade das ilusões, das mentiras. Aquela mesma que proibi as rinhas de Galo, mas investe milhões em lutas livres na TV. O povo vai ao delírio. Muita gente enche os cofres. “A violência incentivada e premiada migrou para os jogos eletrônicos dessas lojas do shopping e para lutas sangrentas de humanos com humanos em ringues primorosos, lutas assistidas por milhões de telespectadores pelo mundo afora.”
    Procura-se contemplar a literatura brasileira de ontem e de hoje: “tens que estudar mais, ler Alencar, Machado, Lima Barreto, Cruz e Souza, Graciliano, Rosa, Clarice. E também os contemporâneos. Tem coisas ótimas sendo escritas. Senão tu não entendes nada do que está acontecendo no mundo de hoje, bródi, nadinha. Procuro apoio nas redes sociais da internet e coisas do gênero, talvez sejam o fármaco de que precisas”. Deflagra-se um narrador contemporâneo: “Não pude deixar de tirar uma foto da paisagem com meu tablet de última geração, foto logo enviada para as redes sociais. Em poucos minutos dezenas de amigos curtiam o cenário e compartilhavam aquela beleza. [...] Bati uma foto das casas açorianas. E fiz um caprichado selfie, o mar acolhedor às minhas costas”. 
   A segunda história, Val e Lalinha, traz uma citação de Dom Casmurro. Vê-se uma fotografia do Rio de Janeiro contemporâneo. O crime passional e o ambiente do crime e do tráfico emolduram a história. “O amor vem ou porque o cara é lindo pra caramba, parecido com um ator de novela, ou porquê lembra o pai, ou porque tem grana, ou porque faz pensar no primeiro namoradinho, ou porque tem poder, ou porque é político e dá emprego pra família da gente e por aí afora. Sempre tem uma razão. Não vem assim do nada não, assim do nada só nos romances que a professora lia para a gente na Escola José de Alencar. Sem essa de ficar como uma flor no meio do mato esperando algum gato colher a gente. Pode esperar sentada que isso não existe”.
   Respira-se Machado de Assis ao longo do livro. Ilusão e Mentira é um tributo do autor a seu mestre. O livro certamente despertará o interesse dos leitores machadianos.  
por Flavio Quintale

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Dezembro é um bom mês pra presentear

    As avós são raramente lembradas nas obras de ficção. Não é o que ocorre no romance Julho é um bom mês pra morrer de Roberto Menezes, publicado pela editora Patuá. A avó é presença constante na memória da protagonista: “No meu aniversário de oito anos, voínha me deu um dicionário. ‘Pra você entender que às vezes o que você sente tem palavra para isso’, imagino ter sido a dedicatória que ela nunca escreveu”.
    Voínha, vetor de reflexões, expõe também suas ideias com exemplos de física: “Os deuses foram criados amiúde. Quando falo Deus, leia destino, acaso, em minúscula mesmo. Um acaso sem arbítrio. Um deus e suas regras primitivas, inflexíveis. Desde o começo dos tempos, se uma pedra é solta no ar, esse deus é forçado a derrubar essa pedra. Não é de sua escolha fazer a pedra flutuar. Pedras só flutuam em sonhos e fábulas para crianças. Deus é um escravo que, pelas eras, foi o obrigado a manter as forças da natureza intactas. Doa a quem doer. A água que embeleza a cachoeira é a mesma que afoga. Deus é um dado viciado”. Esse Deus, “vício das coisas”, é uma espécie de criador incompetente, sem liberdade, já que cria regras que nem ele mesmo é capaz de domar.  Apenas o sonho e a fábula são capazes, de alguma maneira, de romper com a natureza das coisas. “Milagre é a poesia do acaso. É quando você dá de cara na esquina com o ladrão, só que o inverso disso”.  
     O vocabulário é fácil e cotidiano: “Voínha cagava pra estrada. Era daquelas que fecham os olhos no começo da viagem e só abrem no ponto final”. [...]“Copa no Japão. Felipão, Cafu, Rivaldo. Gol. Gol. É penta nessa porra, é penta! [...] Torci a Copa toda. Vai, Rivaldo! Arrebenta, seleção. Gritei com Cafu quando Ronaldo arrombou o rabo dos alemães”. [...]“Marcello Novaes e Carolina Dieckmann se beijavam na praia. A espuma nas ondas. A pele dourada. A claridade do sol. Eu, Laura menina branca cor de vela, nunca esperei ser personagem de uma cena dessa. Novela das sete de merda, de beijos forjados [...] Vi um vídeo no youtube um dia desses, veio numa corrente genérica de email”.
       “Uma escritora um dia já disse que a gente nasce e morre só. Essa é a lei. Vale pra uma bactéria. Vale pra uma baleia. Vale até pra uma enorme estrela.” Vozes femininas narram a história. A mulher que preza a liberdade e que tem um “vibrador do Paraguai”. Amor entre neta e avó, amores entre mulheres, amores em geral. A mulher é também o grande tema, talvez o propósito fundamental, dessa narrativa ambientada predominantemente na Paraíba. A Universidade Federal da Paraíba, onde o autor é professor, aparece citada diversas vezes. “Nas tardes da UFPB, eu esperava o próximo salvador de boa lábia, qualquer um pra me tirar do estado de espera. E eu sabia que isso uma hora ia acontecer”.
          O título do romance, porém, já indica ao leitor o tema que perpassa por toda a narrativa: a morte. As referências ao Antigo Testamento são constantes. Abraão e, sobretudo, Moisés e a passagem do povo pelo Mar Vermelho trazem também carga simbólica à obra. “Era só baixar os braços e imergir. Imergir e endurecer os membros, eu submersa não ia durar tanto. [...] um mar se abrindo para mim, eu perdendo o fôlego, afundando [...] virei o seu espelho”. Nascer é a primeira forma de morte.
 
por Flavio Quintale

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Trincheiras humanas


Integração, palavra-chave num mundo de migrações, imigrações e refugiados como o nosso, é sinônimo de conflitos e finais nem sempre felizes. Essa questão faz do romance Malditas Fronteiras de João Batista Melo publicado pela Benvirá uma obra de extrema atualidade, mesmo sendo predominantemente ambientado no período da Segunda Guerra Mundial.

                Instalar-se, deslocar-se num país diferente do seu, sem saber se o futuro será, de fato, melhor que o passado é uma situação dramática. A fala do capitão do navio de imigrantes é também uma metáfora: “Eu não gosto nem um pouco quando sou obrigado a vagar para cá e para lá, igual àquela vez no bosque com meu pai, sem saber onde vou poder enfim atracar. Isso não é humano, senhora”. A integração é algo vistoso no discurso, mas na realidade está posta num abismo, cercada por um muro, na maioria das vezes invisível: “Um duelo sem final que travavam há muito tempo, uma peça a mais no muro que construíam entre si, afastando-se para mundos intransponíveis nos quais algum dia talvez não pudessem mais se reconhecer mutuamente”.

                A rejeição sofrida, mostra o autor, não é somente um drama para o refugiado, mas a prova de que o ser humano que rejeita outro gratuitamente é um adoentado num mundo débil: “Talvez tenhamos. Talvez todos os homens tenham a peste”.

Ao tratar de imigrantes alemães no Brasil, seja em Belo Horizonte, cidade natal do autor, ou em outros lugares do país, João Batista desfila referências a grandes nomes da literatura e da cultura de língua alemã: Goethe, os Irmãos Grimm, Wagner, Mann, Freud, Remarque, Musil, Heine, Brecht, Fritz Lang e por aí afora. Sem esquecer, evidentemente, da cerveja e dos mestres cervejeiros, responsáveis por esse elixir dourado que faz o mundo todo reverenciar a Alemanha.

Não são as únicas, mas Belo Horizonte e Berlim, são cidades especiais para o romance. A primeira, com suas contradições, aparece também retratada por personagens históricos: “João Paulo II ergueu os braços para abençoar a cidade com a frase “que belo horizonte”, quase ao mesmo tempo em que o poeta Drummond a chamava de “triste horizonte”.  Já a capital alemã: “Berlim era o labirinto. Mas o Minotauro não esperava no meio das ruas repletas de carros ou entre os prédios novos que se intercalavam às edificações históricas. [...] Berlim era o labirinto. E não adiantariam marcas no caminho, novelos de  lã ou restos de pão como nos mitos e contos de fadas”.

João Bastsita não se aventura em experimentalismos e tem linguagem apurada para falar de tragédias, como a queima de livros: “Ideias carbonizadas. Sentimentos em cinzas”. Procura não cair nas armadilhas da indústria cultural que jamais esgota a monótona repetição do mesmo. Prudente, faz parte do prestigioso elenco das letras de um dos estados mais fecundos do país: “E os nativos de Minas Gerais são muito cautelosos”.
 
por Flavio Quintale













 
 
 
 
 
 
 
 




terça-feira, 27 de outubro de 2015

A enquete do dia

     Quase todos os dias e, às vezes, mais de uma vez, liga gente aqui em casa querendo me submeter a questionários.  São pesquisas de mercado, gente vendendo coisa e sei lá quê mais. Normalmente digo que não tenho interesse, nem tempo. 
   Ontem, porém, ligou uma mulher solicitando minha participação numa enquete sobre a quantidade de animais nos lares do país. Uma pesquisa muito importante, dizia ela, e que minha colaboração era de extrema relevância. Como ela tinha uma voz rouca de cantora de sucesso e era simpática, aceitei.
     “O senhor tem algum animal em casa?”, ela me perguntou. Sua voz era uma mistura de Amy Winehouse com Elza Soares.
     “Sim...”, respondi, sem completar a frase.
      Depois de alguns segundos, impaciente com meu silêncio, ela continuou.
     “Um gato, um cachorro...”, deu exemplos esperando minha resposta. Deixei que ela fizesse uma pausa, e tornei.
     “Formiga. Tem formiga que não acaba mais aqui...”
     Ela soltou uma gargalhada. Mas como tinha pressa em telefonar para mais pessoas, agradeceu e me desejou boa noite.
     Desliguei.
     Formiga não é animal? Por que só vale gato e cachorro? Tenho dois formigueiros no jardim. Duas sociedades inteiras que se respeitam e se odeiam. Já as vi brigando por pedaços de pão. Já vi casais apaixonados em acasalamento. Já saiu até morte entre as formigas dos montecchios e as dos capuletos. Tem de tudo lá dentro. Mas a garota da pesquisa não considera minhas formigas, animais.  

 por Flavio Quintale

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Mientras lentamente agonizamos


 
Si la madre España cae – digo, es un decir –
salid, niños del mundo; id a buscarla!...
Cesar Vallejo
 

“Ayer firmé el contrato con la empresa de derribos”. Así abre Diego Alfonsín su novela de estrena “Lenta Demolición”, publicada por las Ediciones Turpial,  obra vencedora del premio Miguel de Unamuno 2105. Es una frase sencilla, pero que, en cierto modo, da al lector un resumen de todo lo que se encontrará después en estas páginas de gran calidad literaria. Al leerla, me acordé súbitamente de la abertura de “El extranjero” de Albert Camus, “aujourd’hui maman est morte”. Son dos inicios de novela bastante simples, banales y, al mismo tiempo, arrebatadores. Hay, todavía, otras relaciones entre estas dos novelas como, por ejemplo, la importante presencia simbólica del mar.

 Los edificios en lenta demolición son también una metáfora de nuestra sociedad hostil y  autodestructiva: “los edificios se han adueñado de un mundo propio que parece tratar de rebelarse en silencio contra los visitantes”. Destrucción que está por todas partes: “tuve la sensación de que habían derrumbando una ciudad entera y de que había miles de personas dedicándose a las labores de destrucción”. 

El deterioro de los edificios y su consecuente demolición y reconstrucción sirve, además, como un gran negocio empresarial en el que los obreros, sin salida, son también explotados por “los de arriba”. Estes trabajadores ejecutan la destruición de los edificios, a saber, de la sociedad en general, al mismo tiempo que destruyen su propia vida y la sociedad en que están inseridos. Trabajan para apenas sobrevivir y, aún por encima, bajo condiciones de trabajo degradantes. Ellos van siendo aniquilados a la par que los predios, en lenta demolición: “los cuerpos de los trabajadores, precipitados al fondo de los suelos abiertos de los edificios, empezaron a multiplicarse. Yacían boca abajo, con los brazos extendidos y un delirio tranquilo en los ojos, derrumbados entre el polvo del abandono”.

Es una obra también de denuncia de las deterioradas condiciones de trabajo en el mundo contemporáneo, con sus contratos escandalosos por tiempo determinado, dejando ejércitos de gente como precarios o al paro. Asistimos a la pérdida de muchísimos derechos conquistados a través de la lucha y el martirio de generaciones y generaciones de trabajadores a lo largo de los últimos siglos. Y, lo peor de todo, es que uno se queda con la impresión de que nada puede ser hecho para cambiar la situación.  

Todas las instituciones van a demoliéndose: “la iglesia la dejaremos para el final, ese trabajo lo haremos juntos”. Pero hay muchos misterios, como los mensajes que aparecen en las paredes de los edificios y que debe ser descifrados. Inscripciones misteriosas en los muros que intrigan a los operarios y dejan el lector curioso, en tenso suspense.  

 Así se comprende porque en la abertura de la novela ya se tiene un resumen de los temas tratados en la obra: el pasado, “ayer”; “el contrato con la empresa”, a saber, el mundo del trabajo y la dialéctica de señor y siervo;  y, por fin, los “derribos”, los edificios y la sociedad que agoniza lentamente. Hay, entre tanto, una esperanza, ya que en este edificio en demolición “hay flores azules alumbrando las tinieblas al fondo de los suelos abiertos”. Una esperanza de que, un día, quizá, también en nuestra sociedad puedan nacer flores “en la oscuridad del fondo”. Entonces, “un pueblo de luz” podrá cantar y bailar “alrededor de pequeñas hogueras”.

 
por Flavio Quintale

 

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Para a sua coleção, Ricardo

     Se existe vida após a morte, para onde vai o suicida? Por que, dizem as religiões em geral, não é permitido à alma suicida juntar-se às não suicidas? Por que esse além-sectarismo? Se não há vida eterna, por que condenar o suicida? Por que julgá-lo por seu ato inexplicável? Essas são algumas questões que suscita a leitura do romance O céu dos suicidas de Ricardo Lísias publicado pela Alfaguara.
     O mistério indecifrável desse ato aterrorizador perturba os vivos. Não é diferente com o personagem do romance, Ricardo Lísias, que luta para compreender a solução extrema empreendida pelo amigo: “quando tudo começou, minha primeira reação foi sentir ódio do André. Tenho vergonha de dizer: mal ele tinha sido enterrado, eu o xingava, falando sozinho na rua”. Sua incompreensão não está livre de algum remorso: “sentir saudades significa, em alguma parcela, arrepender-se”. A agonia intensifica-se “porque todo mundo diz que quem se mata não vai para o céu”.
     André, historiador, interessado na Ordem dos Templários, “era católico. Ele não ia à missa, e muito menos obedecia aos rituais contemporâneos, mas cumpria suas obrigações religiosas por meio de um código particular”. Mas explicações religiosas não satisfazem o personagem Ricardo Lísias. Não existe propriamente a negação da existência de Deus, num primeiro momento. Ele apenas não aceita suas ações, ou a falta delas: “Os suicidas sofrem. Deus desgraçado”. Até que a ira toma conta de Ricardo e ele se volta violentamente contra os ensinamentos das igrejas, independentemente da confissão. Sobra para o pastor protestante: “Olha aqui, seu filho da puta, não sei como vocês dessas religiões saem por aí fazendo propaganda de Deus, você já viu Deus?, me responde, seu filho da puta: você já viu Deus? Então vai tomar no cu. Vai todo mundo tomar no cu.” Sobra também para o Papa Bento XVI: “E esse papa, esse papa aí não foi nazista, não? Todo mundo sabe, seu filho da puta, todo mundo sabe que vocês são pedófilos”.
    A solução reside possivelmente nas contradições: “Nunca acreditei em paraíso, nessas coisas, mas agora descobri que, mesmo tendo se matado, se enforcado, o André parou de sofrer e foi direto para o céu”. Se não existe a vida eterna, não há razão para se lamentar a perda do paraíso. A revolta só faz sentido para aquele que acredita na existência do céu e não se conforma com a impossibilidade do suicida entrar nele. Assim, talvez a questão fundamental não seria o suicida ir ou não ir para o céu, mas antes, se existe ou não o tal céu.
    O narrador Ricardo Lísias é um colecionador benjaminiano: “uma coleção não é um mero acúmulo, mas a história que há por trás de cada um dos itens”. Ele se lembra das coisas antes delas acontecerem. O tempo da narrativa não é linear e o leitor deve estar atento às antecipações e aos retardamentos intencionais.
    O romance é uma homenagem ao amigo André: “uma coleção é como um amigo [...] um presente a esse grande amigo. Aqui está, André”. E não apenas a ele, mas a todos os suicidas, a todas as vidas que lamentavelmente se vão: “a gente descobre o nosso tamanho só quando morre”. É a morte, afinal, que dá algum sentido à existência. 
 
por Flavio Quintale
 

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Infância em São Paulo

Quando fui criança em São Paulo tinha bastante mais que nada, mas muito menos que tudo. Meninos de classe média são os menos livres. Os ricos vão para Nova York, Londres e Paris, ou quando ficam, vivem em condôminos fechados, mansões muradas com cercas eletrificadas, guardas armados, e vigiados dia e noite por guarda-costas e câmeras de circuitos fechados para não serem sequestrados. Os pobres perambulam pela cidade e voltam talvez à noite para os barracos miseráveis, quando não são mortos. Se não estão no tráfico ou na prostituição, são mão de obra quase gratuita na economia informal. Vendedores de balas e chicletes ou lavadores de para-brisa nos semáforos. Eu sobrevivi asfixiado, porque a família tinha dívidas para pagar, e preso perpetuamente no nosso sobradinho, paralisado, pelo pânico de viver, pânico do crime, pânico de não ter trabalho quando crescesse, nem carro, nem casa, nem nada, clamando pela paz, bem alto das grandes da sala, cheio de medo da ameaça dos monstros do delito. Minha única chance de liberdade era vestir a roupa do Superman que minha mãe costurara, ela mesma, e pular do quinto degrau da escada com o braço estendido bradando, repleto de alegria: para o alto... e avante!

do "Livro dos Textículos" de Flavio Quintale 

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Em tradução alemã

Conto inédito de Flavio Quintale publicado no Suplemento Literário de Minas Gerais, edição 1360, maio/junho 2015.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 





quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Lados A e B


lado A

Em uma tarde silenciosa, lia meus livros de poesia. A monotonia das horas, para ela, era um fastio. Vestida toda de branco aproximou-se me reprovando: “Tu desprezas meus lábios para entregar-te a teus versos”. E foi-se com o passo lento, esperando que eu me pronunciasse. Displicente, levantei a cabeça e mirei seu andar de soneto. Mas o deleite das imagens e os sons enlouquecidos das palavras dominavam minha alma extasiada de admirar as curvas das elegias. Permaneci em silêncio contemplando as formas, ouvindo os poemas e suas promessas de paraíso. Ela partiu enraivecida, com o ego entristecido, e deixou-me embriagar com o néctar dos alexandrinos.

 
lado B

Em uma tarde silenciosa, lia meus livros de poesia. A monotonia das horas, para ela, era um fastio. Vestida toda de branco aproximou-se me reprovando: “Tu desprezas meus lábios para entregar-te a teus versos”. E foi-se com o passo lento, esperando que eu me pronunciasse. Displicente, levantei a cabeça e mirei seu andar de soneto. Seu caminhar heroico e seus braços nus de alegoria despertaram-me o desejo dos longos dísticos com rima. Tomei-a pelas costas, de surpresa, e minha pena embalou-a na cantiga e cada beijo completava uma estrofe da elegia que compus em seu leito. Ela permaneceu estendida, com o ego envaidecido, e deixou-me embriagar com o néctar de seus sorrisos.

 

do “Livro dos Textículos” de Flavio Quintale

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Dia, modo de usar


Oito dias na vida de moradores de um prédio “numa povoação encostada ao mar a alguns quilômetros de uma cidade média” dá forma ao romance Debaixo de algum céu de Nuno Camarneiro, vencedor do Prêmio LeYa 2012. A referência ao romance La Vie mode d’emploi de Georges Perec é evidente e confirma-se logo na citação do romancista francês que abre o primeiro capítulo: “Rien n’est plus laid (les escaliers), plus froid, plus hostile, plus mesquin, dans les immeubles d’aujourd’hui”.

                Já no preâmbulo, o leitor vai se acostumando com o trabalho de linguagem presente em inúmeros trechos do livro: “O mar ouve-se de bravo e, quando não é o mar, é o vento a imitar-lhe a raiva” ou, mais adiante, “a biblioteca é vasta e antiga, os livros mortos nas estantes sem esperança de voltarem a viver. São fantasmas com milhares de palavras que jazem em repouso”. Também La vie mode d’emploi retrata a vida de moradores de um edifício, mas em Paris. Também tem um preâmbulo e seu primeiro capítulo fala de escadarias. Essas são apenas algumas pistas das relações entre as duas obras, certamente um tema para tese acadêmica em literatura comparada.  Nuno reafirma a tradição literária portuguesa, historicamente em diálogo com a francesa. Mas não se limita a ela. Há outras referências, entre elas, Dante e Ítalo Calvino.

De 25 de dezembro a primeiro de janeiro, acompanha-se parte da vida e da morte dos habitantes desse edifício. Nenhuma vida, nenhuma morte, pode ser conhecida em sua completude “porque é fácil contar o que acontece, mas faltam palavras para o resto [...] quando alguém conta um dia ou uma vida está a calar quase tudo, as vidas são imensas e não se podem contar só por palavras”.  

Um emaranhando de vozes compõe a narrativa. Diferentes perspectivas são contempladas. “O prédio em oito dias dobra muitas partes das vidas dos inquilinos. São vários os encontros de um morador consigo e com outros”. Nessa polifonia, aparece o padre Daniel com livros de autores como Kant, Schopenhauer, Nietzsche e Kafka em sua biblioteca. Leituras pouco ortodoxas, para esse padre que deixou a casa paroquial para viver no prédio.

David trabalha em casa. É funcionário de uma empresa virtual, PORVIR, ironicamente futurista. Na igreja, conhece a devota Teresa: “As primeiras mamas que vi foi atrás da sacristia, enquanto decorria a missa. Este é meu corpo, tomai e comei, redondas e tão brancas que eu nem sabia para que serviam, olhei-as e se as toquei esqueci-me, eram só lindas as duas, com umas pontitas em bico que desafiavam todas as lógicas que eu conhecia. Este é o meu sangue tomai e bebei”. A provocação, ao estilo de Saramago, é porque “a ideia de pecado mata mais do que todas as bombas, o dever e a culpa são morte antes da morte”. Deus, a religião e a hipocrisia religiosa são temas recorrentes da narrativa: “Filhos-da-puta dos que seguem o Senhor! Filhos de um cabaz de putas! Cabrões de merda, beatos de fim-de-semana, fodam-se uns aos outros e deixem Deus para quem precisa!”, grita um homem descontrolado dentro da igreja. Não é gratuito a história estar ambientada no período natalino.

Nesse edifício, microcosmo do mundo, todo leitor se identifica de alguma maneira: “O Natal de um prédio é cheio de coisas felizes, que algumas se digam para que não se esqueçam. Tristezas não pagam dívidas e alegrias não contam histórias, mas umas e outras compõem vidas, de umas e outras se faz o tempo de uma história”. O tempo em que decorre nossa história, nossa vida, não é mesmo um emaranhado de alegrias e tristezas?

Ao apresentar vidas, esse romance de Nuno Camarneiro, é também uma grande indagação sobre a morte. “A perda dos corpos é por ora compensada com o bulício de quem ficou, não há o silencio, só ansiedade, perguntas e mágoas”. A leitura do livro do Apocalipse na missa de primeiro do ano e a homilia do padre Daniel trazem enorme carga simbólica à obra. História pessoal e história da humanidade entrelaçam-se. Tombará a noite no prédio, como tombará a morte na vida de todos nós: “Em breve será noite no prédio. A história apagar-se-á com o sol, recolhendo-se para dentro de quem a viveu e de quem soube escutar”. Nuno nos convida a escutá-la.  Vivê-la antes que acabe. Deixar “um último sonho atrasar o dia”.

 por Flavio Quintale

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

James Jazz Festival

 
   A epígrafe de Fitzgerald, “na noite profunda e escura da alma, são sempre três horas da madrugada”, logo de cara, e a lista de músicas a serem ouvidas durante a leitura prevista no canal do Youtube do livro (ver abaixo) dão o tom do romance A viagem de James Amaro de Luiz Biajoni publicado pela Língua Geral.  O Jazz, improvisação por excelência, dá o ritmo musical da narrativa. É uma experiência singular.
   James Amaro ecoa, em diversos momentos, The Great Gatsby. De família abastada, “usava calças e tênis de marcas importadas, algo raro naquele tempo”, sem contar os carrões de luxo, ele tem imensa atração por mulheres: “estava sempre atrás das meninas”.
 
   James torna-se advogado. Burguês casado e canalha. Com seu incansável “instinto de predador sexual” tem sempre segundas intenções com estagiárias, para tristeza da esposa Amanda. James Amaro, vara doce, é um sedutor implacável. E o Jazz faz parte da estratégia: “se você quiser comer mulheres, ouça jazz!”. Não é gratuito o jogo de palavras. Amanda ama Amaro. Mas amar James é amargo, “machista misógino”. 
   Assustado com uma amante suicida, procura sair daquele mundo. Viajar, representaria uma nova vida para James. Junto com o velho amigo reencontrado, Alex Viana, à beira de um suicídio,  empreende uma aventura On the Road, pelo interior de São Paulo e Paraty. “Caímos na estrada”. Thelma & Louise, cada um narra sua história e o leitor vai se familiarizando com os personagens. Alex Viana viveu em Londres e conta suas aventuras, para surpresa de James e do leitor, que atento, já poderia reconhecer, bem antes, o antagonismo que eles representam. Alex Viana avisa: “o único problema é que não como carne”. Ao contrário de James, que come, o tempo todo, maminha e fraldinha, na churrascaria e na cama.
   O romance, com variações de narradores, questiona a sociedade que julga as pessoas pelo o que têm e conseguem e não pelo o que são. “Ele estava meio que acima de todos, devido à sua condição social”. Pululam referências musicais e cinematográficas interagindo com temas como homossexualidade, AIDS, câncer e infanticídio.
 
   Os amigos purgam mutuamente o passado e fortalecem a amizade. O banco do carro torna-se uma espécie de divã que cura seus traumas e que os permitem a reconciliação, de alguma maneira, com a vida. O leitor se reconhece em vários momentos do romance. E irá certamente  considerar que, afinal de contas, a própria existência merece sempre uma nova chance.
 
por Flavio Quintale