Conto
inédito de Flavio Quintale publicado no Suplemento Literário de Minas Gerais, edição
1360, maio/junho 2015.
segunda-feira, 5 de outubro de 2015
quarta-feira, 23 de setembro de 2015
Lados A e B
lado A
Em
uma tarde silenciosa, lia meus livros de poesia. A monotonia das horas, para
ela, era um fastio. Vestida toda de branco aproximou-se me reprovando: “Tu
desprezas meus lábios para entregar-te a teus versos”. E foi-se com o passo
lento, esperando que eu me pronunciasse. Displicente, levantei a cabeça e mirei
seu andar de soneto. Mas o deleite das imagens e os sons enlouquecidos das palavras
dominavam minha alma extasiada de admirar as curvas das elegias. Permaneci em
silêncio contemplando as formas, ouvindo os poemas e suas promessas de paraíso.
Ela partiu enraivecida, com o ego entristecido, e deixou-me embriagar com o
néctar dos alexandrinos.
Em
uma tarde silenciosa, lia meus livros de poesia. A monotonia das horas, para
ela, era um fastio. Vestida toda de branco aproximou-se me reprovando: “Tu
desprezas meus lábios para entregar-te a teus versos”. E foi-se com o passo
lento, esperando que eu me pronunciasse. Displicente, levantei a cabeça e mirei
seu andar de soneto. Seu caminhar heroico e seus braços nus de alegoria
despertaram-me o desejo dos longos dísticos com rima. Tomei-a pelas costas, de
surpresa, e minha pena embalou-a na cantiga e cada beijo completava uma estrofe
da elegia que compus em seu leito. Ela permaneceu estendida, com o ego
envaidecido, e deixou-me embriagar com o néctar de seus sorrisos.
do “Livro dos Textículos” de Flavio Quintale
quinta-feira, 17 de setembro de 2015
Dia, modo de usar
Oito
dias na vida de moradores de um prédio “numa povoação encostada ao mar a alguns
quilômetros de uma cidade média” dá forma ao romance Debaixo de algum céu de Nuno Camarneiro, vencedor do Prêmio LeYa
2012. A referência ao romance La Vie mode
d’emploi de Georges Perec é evidente e confirma-se logo na citação do
romancista francês que abre o primeiro capítulo: “Rien n’est plus laid (les
escaliers), plus froid, plus hostile, plus mesquin, dans les immeubles d’aujourd’hui”.
Já no preâmbulo, o leitor vai se
acostumando com o trabalho de linguagem presente em inúmeros trechos do livro:
“O mar ouve-se de bravo e, quando não é o mar, é o vento a imitar-lhe a raiva”
ou, mais adiante, “a biblioteca é vasta e antiga, os livros mortos nas estantes
sem esperança de voltarem a viver. São fantasmas com milhares de palavras que
jazem em repouso”. Também La vie mode d’emploi
retrata a vida de moradores de um edifício, mas em Paris. Também tem um
preâmbulo e seu primeiro capítulo fala de escadarias. Essas são apenas algumas
pistas das relações entre as duas obras, certamente um tema para tese acadêmica
em literatura comparada. Nuno reafirma a
tradição literária portuguesa, historicamente em diálogo com a francesa. Mas
não se limita a ela. Há outras referências, entre elas, Dante e Ítalo Calvino.
De
25 de dezembro a primeiro de janeiro, acompanha-se parte da vida e da morte dos
habitantes desse edifício. Nenhuma vida, nenhuma morte, pode ser conhecida em
sua completude “porque é fácil contar o que acontece, mas faltam palavras para
o resto [...] quando alguém conta um dia ou uma vida está a calar quase tudo,
as vidas são imensas e não se podem contar só por palavras”.
Um
emaranhando de vozes compõe a narrativa. Diferentes perspectivas são
contempladas. “O prédio em oito dias dobra muitas partes das vidas dos
inquilinos. São vários os encontros de um morador consigo e com outros”. Nessa
polifonia, aparece o padre Daniel com livros de autores como Kant,
Schopenhauer, Nietzsche e Kafka em sua biblioteca. Leituras pouco ortodoxas,
para esse padre que deixou a casa paroquial para viver no prédio.
David
trabalha em casa. É funcionário de uma empresa virtual, PORVIR, ironicamente futurista.
Na igreja, conhece a devota Teresa: “As primeiras mamas que vi foi atrás da
sacristia, enquanto decorria a missa. Este é meu corpo, tomai e comei, redondas
e tão brancas que eu nem sabia para que serviam, olhei-as e se as toquei
esqueci-me, eram só lindas as duas, com umas pontitas em bico que desafiavam
todas as lógicas que eu conhecia. Este é o meu sangue tomai e bebei”. A
provocação, ao estilo de Saramago, é porque “a ideia de pecado mata mais do que
todas as bombas, o dever e a culpa são morte antes da morte”. Deus, a religião
e a hipocrisia religiosa são temas recorrentes da narrativa: “Filhos-da-puta
dos que seguem o Senhor! Filhos de um cabaz de putas! Cabrões de merda, beatos
de fim-de-semana, fodam-se uns aos outros e deixem Deus para quem precisa!”,
grita um homem descontrolado dentro da igreja. Não é gratuito a história estar
ambientada no período natalino.
Nesse
edifício, microcosmo do mundo, todo leitor se identifica de alguma maneira: “O
Natal de um prédio é cheio de coisas felizes, que algumas se digam para que não
se esqueçam. Tristezas não pagam dívidas e alegrias não contam histórias, mas
umas e outras compõem vidas, de umas e outras se faz o tempo de uma história”.
O tempo em que decorre nossa história, nossa vida, não é mesmo um emaranhado de
alegrias e tristezas?
Ao
apresentar vidas, esse romance de Nuno Camarneiro, é também uma grande
indagação sobre a morte. “A perda dos corpos é por ora compensada com o bulício
de quem ficou, não há o silencio, só ansiedade, perguntas e mágoas”. A leitura
do livro do Apocalipse na missa de
primeiro do ano e a homilia do padre Daniel trazem enorme carga simbólica à
obra. História pessoal e história da humanidade entrelaçam-se. Tombará a noite
no prédio, como tombará a morte na vida de todos nós: “Em breve será noite no
prédio. A história apagar-se-á com o sol, recolhendo-se para dentro de quem a
viveu e de quem soube escutar”. Nuno nos convida a escutá-la. Vivê-la antes que acabe. Deixar “um último
sonho atrasar o dia”.
quinta-feira, 10 de setembro de 2015
James Jazz Festival
James Amaro ecoa, em diversos
momentos, The Great Gatsby. De
família abastada, “usava calças e tênis de marcas importadas, algo raro naquele
tempo”, sem contar os carrões de luxo, ele tem imensa atração por
mulheres: “estava sempre atrás das meninas”.
James torna-se advogado. Burguês
casado e canalha. Com seu incansável “instinto de predador sexual” tem
sempre segundas intenções com estagiárias, para tristeza da esposa Amanda. James
Amaro, vara doce, é um sedutor implacável. E o Jazz faz parte da estratégia:
“se você quiser comer mulheres, ouça jazz!”. Não é gratuito o jogo de
palavras. Amanda ama Amaro. Mas amar James é amargo, “machista misógino”.
Assustado com uma amante suicida, procura sair daquele mundo. Viajar,
representaria uma nova vida para James. Junto com o velho amigo reencontrado,
Alex Viana, à beira de um suicídio, empreende uma aventura On the Road, pelo interior de São Paulo e Paraty. “Caímos na
estrada”. Thelma & Louise,
cada um narra sua história e o leitor vai se familiarizando com os personagens.
Alex Viana viveu em Londres e conta suas aventuras, para surpresa de James e do
leitor, que atento, já poderia reconhecer, bem antes, o antagonismo que eles representam.
Alex Viana avisa: “o único problema é que não como carne”. Ao contrário
de James, que come, o tempo todo, maminha e fraldinha, na churrascaria e na
cama.
O romance, com variações de narradores, questiona a sociedade que julga
as pessoas pelo o que têm e conseguem e não pelo o que são. “Ele estava meio que acima
de todos, devido à sua condição social”. Pululam referências musicais e
cinematográficas interagindo com temas como homossexualidade, AIDS, câncer e
infanticídio.
Os amigos purgam mutuamente o passado e fortalecem a amizade. O banco do
carro torna-se uma espécie de divã que cura seus traumas e que os
permitem a reconciliação, de alguma maneira, com a vida. O leitor se reconhece
em vários momentos do romance. E irá certamente
considerar que, afinal de contas, a própria existência merece sempre uma
nova chance.
terça-feira, 8 de setembro de 2015
Toma chocolate, paga lo que debes
Vire e mexe vem gente vender coisas para mim.
Recentemente uma moça tocou a campainha de casa e, pelo interfone, anunciou que
eu havia sido escolhido entre os moradores do bairro para ter um desconto de vinte
e cinco por cento nas contas de luz, gás e água. Estava pensando em tudo naquele instante,
menos nas contas de luz, gás e água. Já basta o sofrimento no dia do pagamento.
Foi bem no momento em que, saboreando um café forte, lia o jornal The Independent que anunciava, com
grande alarde, a proposição de Berlim em acolher cerca de 800 mil refugiados
sírios no país. Alguns eufóricos veem a medida como parte de um pagamento humanitário
que a Alemanha deve ao mundo. De fato, a medida é louvável. O mundo assiste o
desespero de famílias em fuga em busca da sobrevivência. Fotos chocantes
inundam nosso cotidiano. Dar-lhes um lar e perspectiva de futuro é um ato de
solidariedade invejável. Por outro lado, a Dinamarca faz anúncios na imprensa da
região dos conflitos desencorajando os refugiados a tentarem entrar em seu país.
Os dinamarqueses leem a história do Patinho
Feio de Andersen desde pequenos. Uma parte da população europeia teme o avanço
mulçumano ainda maior no continente que pode vir com os refugiados. Foram séculos
de luta pela liberdade religiosa. Revoluções e perseguições que custaram muitas
vidas. O proselitismo islâmico assusta muitos dos que se opõem a recebê-los. Os
partidos xenófobos ganham força. Michel Houellebecq não fez sucesso com seu Soumission por acaso. Esse é o cerne das
discussões na Europa, não é somente a questão econômica.
Mas
como ouvi, pelo interfone, a palavra “desconto”, senti um “tim” nos meus
ouvidos. Fiquei interessado em ouvir a
boa nova. Fui até a porta atendê-la em ritmo de chachachá. Ela pediu para entrar. Cordialmente, levei-a para se
sentar à mesa que temos no jardim. Lá, comemos em família nos dias quentes, nos
dias de festa e nos dias de churrasco. Ela se acomodou e começou a explicar que
eu receberia um desconto de 25% se trocasse de companhia. Para tanto, eu
deveria pagar uma multa para minha atual fornecedora. Ou seja, ela não me
disse, mas fazendo os cálculos, no final das contas, a mudança me custaria mais
caro. Educadamente, disse que não tinha interesse. Com certa irritação, ela
insistiu em me convencer. “O senhor não quer ter desconto?” Entendo. Ela
depende de persuadir as pessoas para ganhar uma comissão que, imagino, coitada,
deve ser bem irrisória. “Não. Não quero”. Surpresa, ela começava a perder a
esperança, até que argumentei que todas essas empresas eram geridas por
delinquentes, querendo sempre explorar o consumidor. Vendo meu descrédito no
sistema, desolada, ela concordou em ir embora.
Sem deixar de falar em faturas a
pagar e voltando a tratar do caso espinhoso, sou obrigado a fazer uma confissão:
suspeito de tanto amor. Estrangeiro que viveu tantos anos na Alemanha, como é o
meu caso, terá provavelmente a mesma desconfiança que eu. É preciso tomar
cuidado. Poderão ser criados guetos, como já existem em muitos lugares com os
turcos. Quantos dos meus estudantes turcos, mesmo os mais brilhantes, já não foram
vítimas de preconceito? O sobrenome é, em muitos casos, critério de seleção. O
próprio governo já reconheceu que a integração é um fracasso. Mas não são eles
um excelente exército de mão de obra barata? Gente para executar serviços que o
alemão não está disposto a fazer. Gente jovem para garantir a aposentadoria dos
mais velhos. É aquela história: toma chocolate, paga lo que debes. Um dilemme
cornélien. Se ficam, morrem de bombas; se fogem, são massacrados psicologicamente.
De presente de grego, até os gregos estão fartos. Eles conhecem bem a chanceler
alemã. Em suas mãos, tudo vira negócio. Pode ser um Cavalo de Tróia. Atraí-los
para um lugar único e depois encontrar outra solução, que nada tem a ver com
afeto e solidariedade. Será? Tomara que não. Oxalá seja a vitória da
fraternidade entre os povos. Mas não ponho minha mão no fogo. Já chega
queimá-la com as contas de luz, gás e água.
por Flavio Quintale
quinta-feira, 3 de setembro de 2015
As tribulações de um jovem Sefirot caótico
“Lembrei-me das palavras dos antigos cabalistas, alertando que a
diferença entre luz e trevas é ilusória, pois ambas são únicas em natureza, e não
há luz sem trevas, e não há trevas sem luz”. Essa citação intrigante colhida na
página 27 é, em certo sentido, o tema fundamental do consistente romance Uma leve simetria de Rafael Bán Jacobsen
publicado pela Não-Editora.
Mas o leitor não precisa ter lido Gershom Scholem, muito menos ser conhecedor
do Zohar ou do Bahir, para seguir essa narrativa envolvente onde tudo se refere
ao duplo, ao real e ao ilusório, ao ser e ao parecer. A dicotomia aparece na
personagem Daniel. Basta o leitor o seguir, atento a sua consciência
atormentada e as suas aflições, para compreender o quanto ele sofre com seus escrúpulos
e dilemas. As perturbações de um sujeito profundamente religioso ao descobrir desejos
homossexuais: “se olharmos friamente para a Lei, nada impede o gostar; contudo,
a realização é vedada”.
Utilizando-se da imagem dualista da mística judaica, Rafael apresenta um
tema extremamente atual, que atinge em cheio a sociedade brasileira. Em tempos
de discursos intransigentes e apoderação de grupos religiosos da mídia e da máquina
política nacional, o romance problematiza o drama do sujeito individual,
esquecido dos grandes debates públicos, na luta com seus demônios pessoais:
“Deve ser tão bom ter um Deus que se pode ver, pensei. O meu, contudo,
permanece invisível, invisível e grandioso como a guerra travada dentro de
mim”.
A obra está recheada de referências ao Pentateuco e diferentes versículos
do Salmo 119 separam os capítulos. Sem contar as inúmeras passagens de
ensinamentos da Kabbalah como: “no
vazio de infinitos grãos, incontáveis mônadas, fadadas ao nada, espelhando o
universo inteiro”. E, embora as alusões ao mundo judaico sejam constantes,
o romance não se fecha ao particular, pelo contrário, aborda uma problemática
ampla, vivida também por cristãos e mulçumanos.
Como um personagem de Kafka, o medo de um Deus rigoroso e vingador também
atribula os seus: “adiante, na escuridão, o Rei os observava”. E, ainda
que o romance não tenha nada de kafkiano, ele é absolutamente kafkiano. Fala de
uma coisa para muitos para falar de outra para poucos. Não são também O Processo e O Castelo monumentos da Kabbalah
em forma de romance? O leitor tire suas conclusões.
A
narrativa é bem construída e Rafael demonstra grande conhecimento de teologia e
filosofia, além de ter competente domínio da escrita, refletidas nas
construções e no vocabulário apurado que permeiam a obra. Curiosamente, para o
mundo em que vivemos, esse talvez seja o seu maior pecado.
por Flavio Quintale
terça-feira, 1 de setembro de 2015
Speak, illusion
Dios
en la niebla, pieza de
teatro de Natalia de la Llana, se estrenó en la ciudad de Aquisgrán, Alemania.
La sala estaba llena y el público que compareció seguro que no salió
decepcionado. Al ser puesta en escena, la obra ganó una dimensión de colores y
problemáticas que no se revelan tan fácilmente en la lectura del texto. Claro
que el teatro es representación antes de todo y esto se probó una vez más en
esta obra. Las partes más densas ganaron vivacidad en diálogos ligeros y en
ningún momento la platea se quedó aburrida, a pesar de tratarse de una pieza
seria. Seriedad muchas veces rota por el humor y la ironía, en particular del
demonio representado de manera notable por Mónica Rodríguez con sus gestos y caras maliciosamente diabólicas.
Aquí véase el débito de la autora al Mefistófeles del Fausto de Goethe, con quien dialoga abiertamente.
De una parte, es una pieza sobre la soledad
humana, “no hay peros. Estamos solos. Solos.”, tema tan caro a la tradición
latinoamericana, si uno piensa en Cien
años de soledad de García Márquez o El
laberinto de la soledad de Octavio Paz, pero esto no sería suficiente para
que la obra pudiese llamar particularmente la atención. Que estamos solos en el
mundo contemporáneo ya es algo sabido. Pienso que lo que despierta el interés
en Dios en la niebla es su discusión
sobre la desilusión y la ilusión del hombre con la vida y de Dios con su
creación.
Ilusiones humanas profesionales, la
frustración con la carrera; económicas, la crisis que afecta el día a día de
las personas; amorosas, Augusto, el protagonista, que lamenta no haber amado
suficientemente a su mujer, ahora muerta, y, después, la desilusión con el
nuevo amor; filosóficas, la comprensión socrática de descubrir que nada de lo
que se sabe vale la pena, “¿Fuimos alguna vez otra cosa más que intérpretes de
una realidad que no acabamos de comprender?”; existenciales, pues Augusto,
grande ya en el nombre, se reduce a la nada, porque nada es lo que a él le
gustaría ser; y religiosas, sus dudas y cuestionamientos sobre la fe, la
Iglesia y Dios, que no hace nada para paliar los sufrimientos humanos y los
males del mundo: “la compasión es el recurso de los débiles”.
Ilusiones y desilusiones como espejos. El
ángel y el diablo, el profesor y la estudiante, la vendedora y el comprador, el
patrón y la empleada y, finalmente, Dios y el hombre. Desilusiones no solo del
hombre, sino también de Dios. Un Dios que no sabemos dónde está, si es que está
en alguna parte. Creo que esa es la gran originalidad de la pieza. No hablar
solo de la soledad o de la desilusión del hombre, sino imaginar estos mismos
sentimientos en Dios. Desilusionado consigo mismo por la creación a la que ha
dado vida, es el responsable en última instancia de los horrores del mundo y
del abandono que siente el ser humano.
“Creo que ahora corresponde que juzguemos
a Dios”, propone el diablo, “¡Pongamos bajo la lupa las acciones del
Todopoderoso!”. Nietzsche mató a Dios, pero no todos están acostumbrados a esa idea. Hay todavía una
niebla que no nos deja ver el final, si hay un Dios que está o no en la niebla
unamuniana. Si no hay, está tal vez perdonado. Si hay, ¿por qué no hace nada?:
“¿Está bien que decline sus responsabilidades y nos deje solos?”. Si está
muerto, ¿por qué insistimos en resucitarlo? Al iniciarse la pieza encontramos a
Fausto, al salir, ya estamos Esperando a
Godot. ¿Sale o no sale Godot de la niebla?
Dios
en la niebla (Ñaque Editorial) es una pieza
que merece estar en los teatros madrileños y de toda España. Los españoles
ganarán una gran contribución a su dramaturgia, ya tan rica. El mundo de las
letras lo agradece.
por Flavio Quintale
Fotografía: Michael Lejeune
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